domingo, 28 de junho de 2009

O NOSSO COMANDANTE

Henrique de Carvalho - 1972

Figueira da Foz - Almoço Convívio - 1996
Neste trabalho não podia deixar de falar no nosso comandante. Pois foi ele, que a gosto de uns e nem tanto de outros, comandou e zelou por todos aqueles que fizeram parte do nosso Batalhão.
E muito há para dizer sobre a sua pessoa, mas não o consigo fazer, pois não tenho capacidade documental, nem pretendo fazer aqui um trabalho sobre toda a sua vida.
Recolhi alguma informação que vou transcrever, ficando convencido que outros pormenores importantes ficam por dizer, mas estou sempre disponível para os acrescentar, caso os visitantes deste espaço me dêm conhecimento deles. Isso contribuirá para enriquecimento deste trabalho.
  • NOME: Manuel Carlos Pereira Alves Passos Esmeriz
  • DATA DE NASCIMENTO: 16 de Setembro 1919
  • NATURALIDADE: Foz do Douro - Porto
  • DATA DO FALECIMENTO: 04 de Abril de 2004 - Hospital Mililitar do Porto
  • DEPÓSITO DO CORPO: Igreja da Lapa
  • SEPULTURA: Cemitério da Foz do Douro - Porto

1. CARREIRA MILITAR

  • 1939 - Escola do Exército. Seguidamente, assentou praça no Regimento de Infantaria nr. 8 em Braga, onde foi mais tarde 2º e 1º Comandante;
  • 1949 - Comissão voluntária em Moçambique, onde permaneceu durante seis anos;
  • Comissões no Ultramar na guerra colonial: 1 na Guiné e 2 em Angola, a última em 1970/1972;
  • Comandante do Sector Militar da Lunda;
  • Comandante do Regimento de Infantaria nr. 6 / Porto;
  • Comandante da Região Militar do Porto (após o 25/Abril/1974);
  • Comandante da Guarda Nacional Republicana, 1975/1983

2. ÚLTIMAS PROMOÇÕES

  • Coronel / 1971
  • Brigadeiro (após o 25 Abril de 1974)
  • General (?)
3. O QUE OUTROS PENSAM DE SI:
  • Homem de difícil relacionamento em frente de tropas reunidas, é certo, mas com um padrão de disciplina elevado era possuidor de uma cultura muito elevada (afixado por E. Bruno - 22/04/09);
  • Na GNR homem de grande verticalidade e virtuoso militar (afixado por Narciso Correia em 07/07/08);
  • Homem culto e com grande estatura (alguém);
  • No 25 de Abril era Comandante do Reg. Infantaria 6/Porto. Uma das missões deste regimento era o de ocupar o Comando da Região Militar. Não o fez como estava previsto. Só quando foi conhecida a rendição em Lisboa do Presidente do Governo é que o Coronel se apresentou no Posto de Comando da Região. Foi promovido a Brigadeiro para comandar a Região Militar do Porto. A sua acção na forma como desempenhou o cargo foi importante, pois nunca tomou qualquer decisão sem que a apresentasse a um Estado Maior para discussão e aprovação, revelando-se, assim, fundamental para resistir às confusões sociais e às que as forças políticas criavam. (Fonte: Centro Documental 25 de Abril - Universidade de Coimbra - parte do relato de memória pelo Cor. Art. António Diniz Felgado Fonseca - Dez/07)
4. O QUE EU PENSO:
  • No espaço de tempo que convivemos e fomos comandados por esta ilustre figura, retenho na mente coisas boas e outras bastante desagradáveis sobre o seu comportamento, perante todos os elementos que compunham o Batalhão. E na época, as desagradáveis, ainda o eram mais, pelas situações que enfrentavamos: obrigados a estar onde não tinhamos pedido para estar, as saudades, o clima, as faltas de apoio e carinho, etc, etc, tudo era mau. Claro que não estavamos à espera de facilidades, mas, também, não era justo sermos tratados por "mais uns". Não esqueço, jamais, o dia a seguir à nossa chegada ao Campo Militar do Grafanil, no acto de apresentação ao Comandante da Região Militar, com um calor sufocante, que para nós era novidade; vindos de dez dias de mar, mal dormidos (a maioria no chão); alguns sem pequeno almoço, pois o mesmo não chegou para todos; os acontecimentos pouco dignificantes que se passaram;
  • Em Henrique de Carvalho, nas suas chegadas ao quartel, havia sempre qualquer coisa que corria mal. Quando chamava alguém para fazer uma observação, com ou sem razão, tinha sempre atitudes nada agradáveis para o observado;
  • Sempre que ia ao cinema quantas vezes a sala ficava sem militares ao intervalo. Havia sempre problemas, e era de bom senso evita-los;
  • Mas o seu comportamento era praticamente igual para todos. Praças, sargentos e oficiais eram presa fácil para ele. Nunca me constou que tivesse sido fisicamente violento com as duas últimas classes, mas a alguns chegou a desenhar-lhes na cabeça o corte de cabelo a fazerem;
  • O seu comportamento começou a mudar com a chegada da sua esposa, Exmª. Senhora D. Manuela, pessoa totalmente oposta a ele em termos de temperamento. Senhora com uma educação e trato exemplares, que nos diálogos que mantinha com ele, começavam quase sempre com as imposições dele, mas que se alteravam face às palavras dela. Seria que ele, tal como nós, sentia a falta de carinho e aconchego? Talvez....
  • As coisas mudaram, o seu comportamento perante todos sofreu alterações, substitui-se, em parte, o receio por respeito e lá fomos convivendo;
  • Começaram a aparecer situações agradáveis. Passou a ter interesse nas nossas actividades mais elementares. Aparecia muitas vezes, claro acompanhado pela esposa, a jogos de futebol e andebol. Tinha palavras de incentivo, recordo que as teve comigo no final de um jogo. Enfim era outra pessoa;
  • Com o chegar do fim da comissão não facilitou. Começou bem cedo a tratar do nosso regresso. Viemos primeiro do que batalhões que tinham mais tempo que nós. Embora tivessemos ido para Luanda em camiões, coisa que não nos importou, pugnou sempre pelo nosso bem estar. De Luanda para Henrque de Carvalho, na nossa chegada, viajamos de autocarro, pelo que me apercebi não era muito normal;
  • Já na nossa chegada a H. C., não havendo camas disponíveis nas casernas, pois ainda se encontrava lá a companhia que fomos render, contra o que estava previsto, passou o refeitório para o parque de viaturas e o refeitório passou a dormitório. Assim, dormiu-se num local fechado;
  • Mais importante, não deixou ninguém com processos disciplinares pendentes. Tudo resolveu, a tempo, para que todos viessemos juntos. Até alguns que foram mais tarde não foram esquecidos;
  • Tive oportunidade de conviver de perto com ele nos convívios em que esteve presente. Fiquei com uma impressão muito favorável a seu respeito, notei que era uma pessoa com uma bagagem extraordinária, com conhecimentos históricos sobre Portugal e do mundo, que me impressionaram. De fácil trato, não deixando, porém, de se notar que se estava perante um militar;
  • A última vez que privei com ele e com a sua esposa foi no convívio em Leça da Palmeira. Enquanto o pessoal não chegava da missa, à qual eu e minha esposa não tinhamos ido por termos chegado atrasados os encontrámos já no restaurante. Aproveitamos e conversamos, mas nada de tropa, falamos da vida e dos filhos de ambos e dos seus netos. Foi agradável.
  • Com o tempo, fui-me convencendo, que embora, muitas vezes tenha sido bastante duro com todo o pessoal que comandou, sempre se interessou e zelou por eles perante os seus superiores.
  • Estive presente no acto do seu funeral. Outros camaradas nossos também lá estiveram.
  • Por fim, nunca consegui, que me lembre, saber a proveniência do seu apelido de "ASA NEGRA".

9 comentários:

Anónimo disse...

Conheci este senhor a comandar o RI8 (Braga). Para esquecer. Não havia ninguém que de bom grado o suportasse. Foi a minha primeira grande desilusão sobre o 25 de Abril. Ver a RMN entregue ao Asa Negra levou-me a telefonar a alguém do movimento para manifestar o meu desagrado. Mandaram-no depois para a URSS. Penas que tivesse regressado.

Pedro Esteves disse...

ASA NEGRA devido ao ombro descaido. Fazia lembrar um corvo. GRANDE HOMEM E GRANDE SENHOR!

Pedro Esteves disse...

ASA NEGRA devido ao ombro descaido. Fazia lembrar um corvo. GRANDE HOMEM E GRANDE SENHOR!

Armando Loureiro disse...

Um bom SACANA. !!!! QUE A TERRA LHE SEJA PESADA

Carlos Amaral disse...


Este local é livre para que todos possamos fazer os nossos comentários, positivos ou negativos, mas que não devem ser insultuosos, pois não nos levam a lado nenhum. Há sempre palavras dignas para mostrarmos o nosso desagrado sobre alguém, não nos devendo salvaguardar no anonimato para as nossas opiniões.
O administrador do blog/Carlos Amaral

David Santos disse...

Asa negra por usar uma bengala (perna fraturada) quando foi comandar o CICA1 por volta de 1969 e a usar para aquecer os recrutas. Na vida civil e já depois de reformado, tinha um trato que embora com marca militar era exemplar.
David Santos

Anónimo disse...

Conheci o então coronel Passos Esmeriz em 1972, quando fiz a minha comissão no Leste de Angola, de Fevereiro a Março de 73. Também não tenho boas recordações dele, excessivamente autoritário, com atitudes a roçar a violência física, porque violência verbal era mesmo o seu forte. Assisti pessoalmente à imposição duma carecada a um alferes meu camarada, cujo início foi feito pela sua mão. Isto porque o alferes estava a cortar o cabelo quando S. Exa chegou, nada mais...e poderia citar mais cenas desagradáveis, para utilizar uma palavra mansa, mas o sr Coronel já morreu e isto é um pouco malhar em ferro frio.
Cumprimentos a todos

Nuno Vidal disse...

Bom dia. Embora esta nota seja antiga aproveito para indicar que a alcunha 'Asa Negra' se deve ao facto de, quando comandava uma frente em Angola, que era muito extensa, aparecer nas unidades sob seu comando, geralmente de surpresa, num helicóptero pintado de preto. Fica aqui a explicação.

jorge Neves disse...

Conheci Manuel C.P.A.P Esmeriz no Dala e no ano de 1969 Out/Nov quando ele aparece de surpresa num Héli, ali mesmo na estrada Luso/H.Carvalho e de fronte às antigas instalações da J.A.E.A (Junta Autónuma de Estradas de Angola)e onde eram as nossas instalações. Mal sai do Héli, dirige-se a mim e começou logo a cheirar-me, mais tarde soube o porquê, ( After-Shave e águas de colónia) em ZO, para ele era LUXO e CRIME. Ainda fiscalizou as suiças e a zona do pescoço, na expectativa de encontrar algum fio o que, ele também não tolerava. Sem saber, passei bem à Revista imprevista.
Não havia algum Oficial, pois que, o PC/AV, estava quase em extinção.
Fomos rendidos um pouco mais tarde pelo B.ART 2916.
Dali, transferido para CCS em H. de Carvalho, e colocado no Centro Cripto. Em colaboração com o 1º Cabo Montador, (nome não me lembro ) organizamos o 1º Natal ( 1970 ). Tenho fotos desse acontecimento.

Homema ustéro, mas de bom trato, desde que cumpridores e zelosos. Foi o meu caso, estando no Centro Cripto, muitas vezes deslocava-me a seu gabinete (sempre preocupado) que era mesmo ao lado, era só sair do Cripto e virar à esquerda para se estar de fronte à sua porta,e fazer entrega de msgs Confidênciais. Nunca, até meados de 71, houve qualquer beliscadura com a minha pessoa. Mas ouvi muitos gritos do primeiro andar para a parada a certos militares e formaturas imidiatas para os devidos responsos. Homem do caneco.
Fiquei sempre com a recordação deste militar, militarista exigente mas, ao mesmo tempo dócil e de riso simpático.
Fica aqui o meu testemunho e a pena de nunca mais o ter visto. Eu era de Angola

Jorge Felizardo Neves
Ex-Fur Milº