segunda-feira, 18 de junho de 2018


18 DE JUNHO

Há dias bonitos nas nossas vidas. Este é um deles. Nunca o poderemos esquecer, pois nesse dia do longínquo ano de 1972 regressamos de Angola, para onde nos tinham mandado, no cumprimento de um serviço que diziam ser um dever que tínhamos com a Pátria. Preparação psicológica não nos foi dada, cada um enfrentou tal situação como pode. Na chegada os nossos semblantes, perante os nossos familiares, escondiam todo o cansaço e saturação que trazíamos connosco. Foi bom demais poder abraçar aqueles, esses sim, que nos queriam bem e de quem tantas saudades sentíamos. 

Pela minha parte considero essa data como uma das mais importantes da minha vida.

quinta-feira, 31 de maio de 2018


UM DIA DE SERVIÇO / E.P.I. - MAFRA



Prestei serviço militar na Escola Prática de Infantaria no período de 30 de Novembro de 1969 a 25 de Fevereiro de 1970. Deixei esta unidade pelo motivo de ter sido mobilizado, sendo transferido para R.I. 2 – Abrantes, onde me juntei ao restante pessoal da nossa Companhia para se formar o Batalhão.

Naquela unidade nunca desempenhei serviço relativo à minha especialidade, suponho que nem existia centro de mensagens. Por tal motivo desempenhava funções indiferenciadas, ou seja, como se dizia andava à linha. Isto até passar a ter uma ocupação certa, e a partir daí considerava-me um privilegiado, para isso funcionou a chamada“cunha”.

Um dos serviços que um dia me foi destinado não foi pêra doce. Foram formadas várias equipas incumbidas de ir aos telhados do convento carregar lixo proveniente de umas obras que lá tinham realizado. Tínhamos de subir cerca de cento e cinquenta degraus, que estavam sempre húmidos e por tal escorregadios, andar em cima dos telhados cerca de cinquenta metros, carregar uma padiola, que era bastante pesada, fazer o percurso ao contrário e no final atravessar a parada e ir depositar esse lixo em determinado local. Para  não fazermos muitas viagens resolvemos, erradamente, carregar o máximo que a dita padiola levava. Logo nos arrependemos.

Seguidamente fomos novamente ao local, para fazermos novo carregamento. Mas aqui a sorte, para mim, mudou. Todos os outros elementos foram chamados à sua Companhia pois tinham sido mobilizados. Sozinho não podia continuar a fazer o serviço. Ainda bem.......

Depois do almoço, deram-me outro serviço. Passei a ser ajudante de um civil que andava a realizar uma obra  no quartel. Pessoa bastante simpática e a sua vontade de trabalhar não me pareceu ser muita. Isto passou-se numa Segunda-Feira, tinha vindo passar o fim de semana a casa e pouco tinha dormido, além da viagem de regresso feito nessa noite. Em conversa dei-lhe a entender que estava um pouco cansado. Ele percebeu a ideia. O serviço a fazer não sei qual era, pois não chegamos ao mesmo. Lembro-me que entramos num ginásio, ele fechou a porta e deitamos-nos nos colchões que lá se encontravam. Conversamos, conversamos e adormecemos. Problema, quando acordamos ficamos em pânico, já passava da hora do jantar e eu não apareci. Ele, que era duma localidade das redondezas, já não tinha transporte para casa. Entretanto, foi comigo junto do refeitório, e perante o oficial em serviço, justificou com a sua palavra a minha falta, alegando que estivemos a acabar um serviço que tinha de ser acabado. Tudo ficou sanado. Como foi para casa nunca cheguei a saber, pois nunca mais o vi.

Assim se passou mais um dia, dos muitos, da minha vida de militar.

Carlos Amaral



VIAGEM COMPLICADA

Estavamos no ano de 1969 e viajar não era muito comum para a maioria das pessoas. Sempre havia umas excursões, organizadas por asssociações, pelo barbeiro, pelos frequentadores de cafés, etc, etc. Muita gente, principalmente as do interior, nunca tinham visto o mar e até os comboios. Mas esta situação começava a mudar-se, principalmente para os homens, com o serviço militar. Os “entendidos” resolviam pôr o pessoal a viajar. Assim, deslocavam os chamados mancebos para locais que destinavam a expensas suas, e assim ficavam a conhecer os país.

Eu até ingressar, obrigado, no serviço militar era um dos que pouco tinha viajado. O mais longe que tinha ido, recordo-me, tinha sido à Figueira da Foz. Os meios de comunicação, também, não permitiam ir muito longe num só dia. No serviço militar até Angola, como sabem, fui. Isto devo, sem dúvida alguma, aos nossos governantes da época.

Uma das viagens que fiz, já a cumprir o “meu” dever como patriota, foi como diz o título deste comentário: bastante complicada, como a seguir passo a contar:

Tinha acabado a especialidade de Operador de Mensagens, no Porto, Regimento de Transmissões e das poucas hipóteses que tinha para escolher a minha colocação, tivemos o privilégio de exercermos essa prerrogativa, face às que me foram apresentadas, eu escolhi Mafra; Escola Prática de Infantaria.

No dia 29 de Novembro, Sábado, levaram-me como a muitos mais, para a Estação de Campanhã, com uma guia de marcha, para viajar para o destino que tinha escolhido. O comboio era o Correio, como era chamado, e saiu daquela estação às 00,20 com destino a Lisboa. A minha guia dizia que tinha de fazer transbordo na Estação de Alfarelos. Logo muita atenção para não a passar sem sair. Mas onde era Alfarelos?. De nome eu conhecia, mas a Estação é que não. E de noite “todos os gatos são pardos”. Valeu-me a ajuda de um dos acompanhantes que era daquela zona e me iria informar quando lá chegássemos. Assim aconteceu. Mais: como era músico numa Banda da zona de Soure, indicou-me um Sargento-Mor, também músico, que se encontrava em Mafra na banda da unidade. Aceitei a sugestão.

Depois de sair do comboio, dirigi-me a um funcionário para que me desse orientação para continuar a viagem. Entretanto, juntaram-se outras pessoas e fomos encaminhados, à luz de umas lanternas, pois tivemos que atrevessar algunhas linhas, para uma composiçaõ que já lá se encontrava à espera de possíveis passageiros. As suas condições eram fracas, mas passados cerca de dez minutos de andamento parou. Fomos informados que tínhamos de saír e passarmos para outra. Estávamos na Estação de Amieira.





A composição para onde fomos encaminhados era de nível superior à anterior, mas estava totalmente às escuras. Entrei numa carruagem, constatando que já lá se encontravam outros passageiros. Não me senti muito bem. Os ditos ocupantes, pelo que me apercebi estavam embriagados, vinham da Póvoa de Varzim e tinham acabado o serviço militar. Após alguns minutos, sorrateiramente, abandonei o local e instalei-me noutra carruagem.

Convencido que iria fazer o resto da viagem para Mafra instalei-me o melhor possível. Porém, enganei-me, passado algum tempo novo transbordo. Aqui, falha.me a memória, estávamos na estação da Figueira da Foz ou Caldas da Raínha? Suponho que era na primeira; linha do Oeste.

O mês de  Novembro estava a terminar, período de muito frio, e eu bem o sentia. Para minorar a situação, arrisquei e vesti por cima da farda uma gabardine, civil, que levava na bagagem e que era forrada com pêlo. Agora nova atenção; Mafra era longe ou já ali?. A manhã estava aí e o comboio começou a encher. Com receio de ter problemas por ir vestido meio à paisana meio à militar tirei o agasalho que me servia de conforto. Notei que a pessoas que me acompanhavam ainda não tinham reparado na situação, pela sua admiração. Falei com alguns, disse-lhes qual o meu destino e se estava longe ou perto. Prontamente se ofereceram para me informarem quando lá chegássemos.

Entretanto, fui informado pelo Revisor que a Estação de Mafra ficava a alguns quilómetros do quartel, cerca de oito, e possivelmente não teria ligação até à vila. Aconselhou-me a sair na Malveira e aqui apanhar um autocarro para a mesma. Seria o mais aconselhável. Tudo para mim era novidade e aceite o conselho.

Malveira, já era bem de dia, entre as oito e as nove da manhã. Procurei o local de partida do autocarro. Informei-me dos horários e comprei o bilhete; custo quatro escudos, hoje dois céntimos!!!! Fui tomar o pequeno-almoço.

Iniciei a viagem, aqui, pelas informações obtidas não havia mais transbordos. Finalmente cheguei ao destino. O motorista indicou-me onde era a entrada do quartel. Desci do autocarro e à minha frente tinha o Convento, fiquei pasmado, conhecia a sua grandeza por fotos, mas ao vivo era coisa bem diferente.

Dirigi-me à Porta de Armas, abordei o sentinela de serviço, que de imediato se pôs em sentido, disse-lhe ao que ia. Por entre dentes perguntou-me de onde eu era, respondi-lhe: de Gaia. Ele também o era, mas não nos conhecíamos. Perguntei-lhe como era aquilo alí, respondeu-me: olha para a letras que estão no cima da porta. Olhei; E.P.I., então traduziu-me: Entrada Para o Inferno!!!!! Boa receção..........

Fui encaminhado para o Oficial de Dia, era um Major. Ia cheio de tremideiras: tinha de me apresentar; dizer aquela ladainha que nos tinham ensinado: apresenta-se o soldado nr. etc, etc. Não foi preciso, devia ter conhecimento da minha chegada e fui encaminhado para uma Companhia onde iria pertencer. Fui recebido pelo Cabo de Dia que registou a minha chegada e mandou-me apresentar no dia seguinte. Um pormenor: não tinha direito a almoço naquele dia, só jantar. Foi-me dada uma licença para sair do quartel.

Saí, era Domingo, dia 30 de Novembro. Mafra estava em festa, realizava~se a Feira de Santo André. Percorri a mesma, estava em plena zona saloia, com hábitos e costumes bem diferentes daqueles a que estava habituado. Apreciei tudo quanto vi fazendo comparações. Estava muito frio e muito vento. Recolhi-me num café, suponho o Central, comi algo. De tarde voltei à feira. Jantei no quartel e deitei-me cedo, pois não tinha dormido na noite anterior e não sabia como iria ser o meu dia seguinte.


Crachá E.P.I.


Porta de Armas

Carlos Amaral

domingo, 13 de maio de 2018



ALMOÇO DE CONFRATERNIZAÇÃO  2018



Como vem  acontecendo, através dos anos,o pessoal da nossa Companhia, CCS/BAT.CAC 2911, vai reunir-se num almoço anual. Este vai ser o 28º. Como habitualmente servirá este encontro para reforçar os laços de amizade criados, não só no tempo em que, por motivos ingratos, convivemos, mas também naqueles que fomos criando através dos tempos.

No encontro do último ano, por proposta do nosso camarada, JOAQUIM ANTUNES, das Transmissões, irá acontecer na cidade de Castelo Branco, local onde vive. O mesmo realiza-se-à no próximo dia 09 de JUNHO.

O Antunes, como é seu timbre, com o seu entusiasmo, quer que esta confraternização fique na memória de todos os presentes. Para tal, tudo tem procurado fazer para que isso venha a acontecer. A nós, seus convidados só nos resta aparecer na máxima força. O nosso camarada merece-o.

A  seguir passo a carta-convite que foi endereçada a todos os elementos da nossa Companhia.






quinta-feira, 15 de março de 2018



I. R. S. - LIGA DOS COMBATENTES - VAMOS TODOS COLABORAR


Nos termos do nº 6 do artº 32º da Lei nº 16/2001, de 22 de junho, os sujeitos passivos de imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS) podem efetuar uma consignação fiscal, a favor de uma Pessoa Coletiva de Utilidade Pública de fins de beneficência, assistência ou humanitários ou de uma Instituição Particular de Solidariedade Social, nas quais se enquadra a Liga dos Combatentes.

Isto significa que 0,5% do imposto liquidado às Finanças e já pago pode reverter a favor da Liga dos Combatentes, sem quaisquer encargos para o Contribuinte.


Para isso, basta preencher o quadro 11 do modelo 3 da Declaração, tal como passamos a mostrar:


irs

domingo, 11 de março de 2018


CONVIVÊNCIAS / AMIZADES



Uma das formas de passar o tempo no período que nos encontrávamos a cumprir a nossa missão era a sã convivência com quem nos rodeava. E esses convívios eram feitos de inúmeras formas: conversando, jogando os mais variados jogos, praticando desporto, etc, etc. Essas manifestações, muitas vezes, realizavam-se, fora dos muros do aquartelamento e transportavam-se para os meios civis e até, embora também militares, com elementos da Força Aérea.

Com os últimos elementos referenciados praticávamos desporto. Como todos se devem lembrar nós tínhamos uma equipe de Andebol, o que acontecia, também, com os mesmos. Foram, ao longo do tempo, vários os confrontos que tivemos. Dos mesmos nasceram, naturalmente, amizades que se estenderam para fora dos recintos desportivos. Normalmente os embates eram disputados nas instalações do Clube Desportivo de Saurimo e os resultados, embora fossem importantes, pois ninguém gostava de perder, eram imediatamente esquecidos na mesa de um qualquer bar com uns canhangulos à frente.

Quando estávamos prestes a acabar a comissão, não deixaram aqueles elementos de organizarem um jogo de despedida. Esse foi nas instalações da Base Aérea. Além do jogo, que foi muito animado, homenagearam-nos, a quem quis ficar, com uma ceia na messe dos cabos-especialistas, havendo no final uma sessão de variedades com fados e música. O convívio durou, praticamente, toda a noite e aconteceu no dia 30 de Maio de 1972. Para nos deslocarmos para a a Base Aérea foi-nos concedido transporte em viaturas militares, devidamente autorizado pelo nosso Major (à época) Estorninho, que quando lhe solicitei o mesmo me apelidou de agitador desportivo. Estava bem disposto..........

As fotos que passo a seguir referem-se ao jogo, cujo resultado não há registo, pois não era o mais importante. Na nossa memória ficou sim a estima e a amizade de quem como nós se encontrava longe de quase tudo.




Carlos Amaral





UM PRETO DE CABELEIRA LOIRA E UM BRANCO DE CARAPINHA NÃO É NATURAL....




De certeza que todos se lembram da publicidade, que há muitos anos, passava na televisão portuguesa recomendando o uso do restaurador para o cabelo marca OLEX, com a frase em título.

Sirvo-me desse anúncio para contar uma peripécia, que aconteceu aquando da nossa presença em Henrique de Carvalho e em que fui um dos protagonistas.

Mas antes, de contar os factos, quero esclarecer que tanto eu, como o outro figurante nada tínhamos, nem temos, contra as pessoas de cor. Aqui nada houve de racismo ou xenofobia E, demonstrativo disso é que nos nossos amigos havia pessoas de todas as cores e que convivíamos com elas da melhor forma.

Assim: estávamos quase a acabar a comissão e depois de uma noite de copos, bem passada, já de manhã, sem saber como, ainda hoje estou por saber, entramos numa porta ao lado do Café-Restaurante Lux. Fomos dar a uma dependência onde se encontrava um funcionário, do mesmo, a confecionar bolos: bolas de Berlim. Ao aperceber-se da nossa presença, como lhe competia, e bem, impôs-se, e mandou-nos sair. Palavra puxa palavra e a situação começou a complicar-se. Eu até compreendi e estava disposto a abandonar o local, mas o outro interveniente, um pouco mais eufórico, entrou, com um certo sentido de humor, na discussão e no meio dela proferiu a seguinte frase: queres ver que vou transformar um preto em branco!!!!!! Então eu reparo que ele estava a olhar para uma caixa que continha farinha para a confeção das ditas bolas de Berlim. Aqui eu vem tentei demovê-lo, mas não consegui, e vai daí, num ápice, ele despeja a farinha na cabeça do funcionário. Resultado: aparentemente, ele ficou branco.

Depois do acontecido, houve uma reação, natural, do ofendido, que investiu sobre o ofensor. Só nos restou desaparecer rapidamente do local, evitando assim outras consequências.

Seguidamente, como era Domingo, vestimos-nos à civil e ao fim do dia passamos pelo restaurante, e em conversa com o seu proprietário, o saudoso Snr. Castro, ele contou-nos o que tinha acontecido, lamentando-se não ter podido servir aos clientes a guloseima. Nós, claro, também, lamentamos, e fomos ouvindo da sua boca que se soubesse quem tinham sido os causadores do prejuízo que lhes não perdoava. Nós concordamos...........

Sobre o outro elemento, "o chamado bandido da ocorrência", não o identifico nem lhe aponto o dedo, mas dadas as circunstâncias, não será muito difícil chegar até ele. Eu, eu tudo fiz para que nada de mal ocorresse; só tive o azar de estar em hora errada no sítio errado e com a pessoa errada. Mas a verdade é que estávamos quase sempre juntos.

Face à pseudo-transformação da vítima, lamento, pois, sou de opinião, como também se dizia no anúncio: O QUE É NATURAL É CADA UM SER COMO É.

Enfim, mais um momento dos muitos que passamos, e que, ainda hoje, com alguma nostalgia, nos fazem lembrar a irrequietude dos nossos vinte anos.

Carlos Amaral