domingo, 11 de março de 2018


CONVIVÊNCIAS / AMIZADES



Uma das formas de passar o tempo no período que nos encontrávamos a cumprir a nossa missão era a sã convivência com quem nos rodeava. E esses convívios eram feitos de inúmeras formas: conversando, jogando os mais variados jogos, praticando desporto, etc, etc. Essas manifestações, muitas vezes, realizavam-se, fora dos muros do aquartelamento e transportavam-se para os meios civis e até, embora também militares, com elementos da Força Aérea.

Com os últimos elementos referenciados praticávamos desporto. Como todos se devem lembrar nós tínhamos uma equipe de Andebol, o que acontecia, também, com os mesmos. Foram, ao longo do tempo, vários os confrontos que tivemos. Dos mesmos nasceram, naturalmente, amizades que se estenderam para fora dos recintos desportivos. Normalmente os embates eram disputados nas instalações do Clube Desportivo de Saurimo e os resultados, embora fossem importantes, pois ninguém gostava de perder, eram imediatamente esquecidos na mesa de um qualquer bar com uns canhangulos à frente.

Quando estávamos prestes a acabar a comissão, não deixaram aqueles elementos de organizarem um jogo de despedida. Esse foi nas instalações da Base Aérea. Além do jogo, que foi muito animado, homenagearam-nos, a quem quis ficar, com uma ceia na messe dos cabos-especialistas, havendo no final uma sessão de variedades com fados e música. O convívio durou, praticamente, toda a noite e aconteceu no dia 30 de Maio de 1972. Para nos deslocarmos para a a Base Aérea foi-nos concedido transporte em viaturas militares, devidamente autorizado pelo nosso Major (à época) Estorninho, que quando lhe solicitei o mesmo me apelidou de agitador desportivo. Estava bem disposto..........

As fotos que passo a seguir referem-se ao jogo, cujo resultado não há registo, pois não era o mais importante. Na nossa memória ficou sim a estima e a amizade de quem como nós se encontrava longe de quase tudo.




Carlos Amaral





UM PRETO DE CABELEIRA LOIRA E UM BRANCO DE CARAPINHA NÃO É NATURAL....




De certeza que todos se lembram da publicidade, que há muitos anos, passava na televisão portuguesa recomendando o uso do restaurador para o cabelo marca OLEX, com a frase em título.

Sirvo-me desse anúncio para contar uma peripécia, que aconteceu aquando da nossa presença em Henrique de Carvalho e em que fui um dos protagonistas.

Mas antes, de contar os factos, quero esclarecer que tanto eu, como o outro figurante nada tínhamos, nem temos, contra as pessoas de cor. Aqui nada houve de racismo ou xenofobia E, demonstrativo disso é que nos nossos amigos havia pessoas de todas as cores e que convivíamos com elas da melhor forma.

Assim: estávamos quase a acabar a comissão e depois de uma noite de copos, bem passada, já de manhã, sem saber como, ainda hoje estou por saber, entramos numa porta ao lado do Café-Restaurante Lux. Fomos dar a uma dependência onde se encontrava um funcionário, do mesmo, a confecionar bolos: bolas de Berlim. Ao aperceber-se da nossa presença, como lhe competia, e bem, impôs-se, e mandou-nos sair. Palavra puxa palavra e a situação começou a complicar-se. Eu até compreendi e estava disposto a abandonar o local, mas o outro interveniente, um pouco mais eufórico, entrou, com um certo sentido de humor, na discussão e no meio dela proferiu a seguinte frase: queres ver que vou transformar um preto em branco!!!!!! Então eu reparo que ele estava a olhar para uma caixa que continha farinha para a confeção das ditas bolas de Berlim. Aqui eu vem tentei demovê-lo, mas não consegui, e vai daí, num ápice, ele despeja a farinha na cabeça do funcionário. Resultado: aparentemente, ele ficou branco.

Depois do acontecido, houve uma reação, natural, do ofendido, que investiu sobre o ofensor. Só nos restou desaparecer rapidamente do local, evitando assim outras consequências.

Seguidamente, como era Domingo, vestimos-nos à civil e ao fim do dia passamos pelo restaurante, e em conversa com o seu proprietário, o saudoso Snr. Castro, ele contou-nos o que tinha acontecido, lamentando-se não ter podido servir aos clientes a guloseima. Nós, claro, também, lamentamos, e fomos ouvindo da sua boca que se soubesse quem tinham sido os causadores do prejuízo que lhes não perdoava. Nós concordamos...........

Sobre o outro elemento, "o chamado bandido da ocorrência", não o identifico nem lhe aponto o dedo, mas dadas as circunstâncias, não será muito difícil chegar até ele. Eu, eu tudo fiz para que nada de mal ocorresse; só tive o azar de estar em hora errada no sítio errado e com a pessoa errada. Mas a verdade é que estávamos quase sempre juntos.

Face à pseudo-transformação da vítima, lamento, pois, sou de opinião, como também se dizia no anúncio: O QUE É NATURAL É CADA UM SER COMO É.

Enfim, mais um momento dos muitos que passamos, e que, ainda hoje, com alguma nostalgia, nos fazem lembrar a irrequietude dos nossos vinte anos.

Carlos Amaral


terça-feira, 26 de dezembro de 2017



NATAL DE 1971

No dia seguinte ao dia de NATAL, escrevi a um familiar contando-lhe como passei essa quadra festiva e passo a seguir essa carta: 


Carlos Amaral
"Do meu Baú de Memórias"



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017



MENSAGEM DE NATAL


Mais um ano, praticamente, está a chegar ao fim, no qual muitas coisas nos aconteceu, umas melhores outras nem tanto, mas o facto de podermos passar, mais uma vez esta quadra é motivo de satisfação. Para todos UM BOM NATAL e que o NOVO ANO nos traga tudo aquilo que mais desejamos, sãos o votos sinceros do nosso BLOG.



domingo, 10 de dezembro de 2017


EMISSOR REGIONAL DE SAURIMO – ENCERROU

Estávamos nos primeiros dias de Dezembro de 1971 e a cidade foi surpreendida com o encerramento do seu Emissor de Rádio. Numa localidade em que a cultura tinha pouca representatividade, pois poucas eram as manifestação dessa ordem, a rádio tinha um papel preponderante para os cidadãos comuns. Através das suas emissões ia-se tendo conhecimento das principais notícias do País, sobre desporto, atualidades musicais e tinha uma rubrica de “Discos Pedidos” que tinha muita audiência.

A nossa Companhia chegou a fazer parte da sua programação. Os alferes Pimentel e Amaral em conjunto com o Furriel Valente, realizavam e davam voz, duas vezes por semana, a um programa que se chamava “Mosaico”, e que deixou de ser apresentado, em determinada altura, por considerarem que tentavam interferir, pessoas exteriores à Rádio, na sua linha de orientação.

O motivo do encerramento, que deixou a cidade mais pobre, não foi explicado aos seus fiéis ouvintes. Constou-se que o projeto tinha falido por falta de verbas, mas também se dizia que as pessoas que lhe davam vida entraram em desacordo, provocando zangas entre os mesmos e que por serem totalmente amadores resolveram sair, não havendo a seguir quem assumisse o trabalho que até aí vinham a desenvolver.

sábado, 18 de novembro de 2017



FALECEU O LATA

É com profundo pesar que comunicamos o falecimento de mais um camarada nosso, que ocorreu no passado dia 13 de Setembro. De seu nome completo MANUEL DOS SANTOS LATA, número mecanográfico 10600269, tinha a especialidade de Condutor Auto Rodas, mas que não a desempenhava. Prestava, sim, serviço no bar dos praças. Pessoa bastante conhecida pela sua forma de estar, não deixava de ser um amigo. Esteve presente na maior parte dos nossos convívios anuais. No ano de 2014, na Mealhada, foi o último em que compareceu, não mais o fazendo por motivos de saúde.

Era natural da Póvoa de Varzim.

Lamentamos só nesta data podermos dar esta triste notícia, mas só agora tivemos conhecimento do acontecimento.

A toda a sua família, bem como aos seus amigos, apresentamos os nossos pêsames, e a ele prestamos-lhe, aqui, a nossa homenagem.

sábado, 11 de novembro de 2017

CABELO, BARBA E BIGODE


Todos nós, militares do nosso Batalhão, passamos pelos chamados anos Sessenta do Sec XX. Esses anos fizeram parte do que muitos consideram ser uma das principais décadas desse período. Em todo o mundo ocorreram factos relevantes para a Humanidade.

Foram muitos, com destaque para alguns: a chegada do Homem à Lua; o assassinato do Presidente Kenneddy: a guerra do Vietname; foi morto Luther King Jnr.; Mao Tse-Tung, na China, lançou a Revolução Cultural; ocorreu na Africa do Sul o primeiro transplante de coração; a IBM lançou o seu primeiro computador; foi construido o Muro de Berlim, etc, etc
Chegada do Homem à Lua

Em Portugal vivia-se num clima nada favorável para a sua população. O regime político da época assim o proporcionava. O abismo social era grande e mais se começou a notar nesta década. Uma solução passava pela emigração. Estima-se que Um Milhão e Trezentos Mil pessoas o fizeram. A este fenómeno juntou-se a deslocalização de muita gente do interior para junto das cidades, mais industrializadas, à procura de trabalho, o que ocasionou a desertificação de grande parte do nosso território. Hoje, ainda, é notório o resultado dessas iniciativas. Os estudantes começaram a organizar manifestações contra poder político, etc, etc.

Além do atrás mencionado começou a Guerra do Ultramar, e aqui começou outro problema para os nossos jovens: o serviço militar era obrigatório e poucos escapavam à mesma, só mesmo aqueles que desertavam ou não se apresentavam, conforme lhes era exigido.

Vivíamos num País sem liberdade, mas mesmo assim haviam certas modas que eram toleradas. Estávamos no período áureo do Beatles e dos Hippies e daí resultava uma tendência, generalizada, nos jovens para usarem o cabelo comprido. Mas no serviço militar isso não era permitido, mas sim o contrário: cabelo curto e cara limpa. Esta regra foi-nos imposta e quem não a cumprisse, minimamente, podia ter dissabores. Acontecia muitas vezes as dispensas de saída serem cortadas a quem não estivesse em tal situação. Como castigo, em muitos casos sem grandes motivos, eram os militares obrigados a cortar o cabelo à “escovinha”. Tal atitude, pouco abonatória e até vexante, motivava que quem a sofria, evitar de ir passar o fim se semana a casa, pois ao apresentar-se assim demonstrava ter sofrido um castigo. Isto passava-se em relação ao cabelo, quanto às barbas e bigodes nada acontecia, pois ninguém arriscava deixar crescer tais decorações faciais.

Exemplo de um corte militar
Os Beatles



Exemplo de Hippies

No Ultramar tais castigos não aconteciam, pois aí o pessoal rapava o cabelo, voluntariamente, com a ideia que tal procedimento era saudável. Havia sempre quem exagerasse no tamanho do mesmo, mas nada de mais, e lá se ia andando. Mas barba e bigode continuava a não ser permitido. Para o caso do bigode, recordo-me, que em certa ocasião ter havido uma viabilidade para se usar, mas sujeita a regras: bigode militar como as normas e para tal teria de se apresentar um desenho ou um croqui do que se pretendia. Claro ninguém se mostrou interessado.

Com o passar do tempo, e o fim da comissão à vista, usar bigode foi permitido sem grandes regras, mas dentro do razoável. Aqui deu-se uma explosão de “bigodistas”, pois talvez metade ou mais da Companhia deixou de rapar o lábio superior. Eu, como na vida civil já usava tal enfeite, aproveitei, a facilidade, e no dia 5 de Março de 1972 mudei o meu visual. Poderei aqui deixar uma confidência: a partir dessa data nunca mais o meu lábio teve a sensação de sentir uma lamina. Coisas da vida!!!!

Mas como sempre o fruto proibido é o mais apetecido, e com o aproximar da viagem de regresso os ditos bigodes foram desaparecendo, pois todos queriam chegar junto dos seus com as caras lavadas. Os cabelos, esses todos deixaram crescer um pouco mais do que as normas exigiam.


Texto: Carlos Amaral